Adoecimento Psicológico Infantil: apresentações


Tenho atendido crianças por muitos anos na clínica. Atualmente desenvolvo um trabalho especializado somente com crianças no Centro de Referência e Tratamento da Criança e Adolescente II em Campos dos Goytacazes e na Clínica Viver Bem em Macaé, e posso dizer que as crianças podem sofrer e muito em seu ambiente familiar sem que seus pais percebam. 

Posso listar alguns motivos que mais se apresentam como fatores de sofrimento infantil dentro de uma família estruturada e ou semi-estruturada.



Dentre os problemas mais comuns estão Transtorno de Ansiedade, Déficit de Atenção com ou sem Hiperatividade, Depressão com ou sem retardo de desenvolvimento cognitivo, Transtorno de Conduta com ou sem Transtorno Opositor, Alterações de humor, Transtornos Cognitivos leves e médios relacionados à família de origem, Síndrome de Asperger/Autismo, Enurese e encoprese, foia alimentar, dentre outros de menor frequência.

Esses são apenas os sintomas apresentados pela criança. É importante ressaltar que devemos considerar esses sintomas em análise com o contexto familiar, escolar e social no qual a criança se insere para termos uma visão mais global do fenômeno adoecimento infantil. Precisamos identificar fatores-causa, fatores potencializadores, fatores predisponentes, fatores impeditivos da cura e fatores de manutenção do problema.

O adoecimento psicológico infantil é determinado por múltiplas causas e não devemos nunca crucificar a criança com intervenções centralizadas exclusivamente nela, como se nela se originasse e terminasse o problema que causa o sintoma. Intervenções na família, na relação conjugal, nos avós, na escola e até mesmo com os amigos devem ser pensadas. Leia Psicologia para Educação dos Filhos para pensar melhor a dinâmica familiar. 

Os Sintomas do Adoecimento Infantil

Não quero ser pretensioso a ponto de lançar aqui um manual de todas as manifestações psicopatológicas da criança, longe de mim tal pretensão impossível nesse canal. A intenção é somente apresentar alguns quadros que não devem ser referência para um autodiagnostico, mas sim um breve discorrer sobre os quadros. Também não pretendo apresentar as causas fixas e geradoras de cada sintoma, muito menos reproduzir o CID-10 ou o DSM-IV, apenas almejo  tecer breves comentários sobre os quadros aparecidos em clínica infantil durante esses anos de trabalho. Nem pretendo lançar mão de métodos de educação ou clínicos por aqui. Para isso, sugiro o artigo Sugestões para o Relacionamento Familiar. Portanto, se houver interesse sobre os quadros apresentados, sugiro uma pesquisa científica ampla e com fontes apropriadas para o tema.

Dentre as causas comuns citadas acima, temos o Transtorno de Ansiedade. Nesse transtorno a criança não sabe esperar sua vez, pode agredir verbal ou fisicamente amigos ou familiares, não consegue manter a atenção fixa, tem muita agitação e não para quieta, está sempre andando em sala de aula e pode apresentar preocupações das quais não está consciente no momento. A ansiedade infantil difere da adulta por ter maiores consequências no âmbito motor e da atenção seletiva: há agitação e impossibilidade de manter-se concentrada por longos períodos. A depressão pode ou não ser uma causa do transtorno de ansiedade infantil.

Déficit de Atenção com ou sem Hiperatividade é uma das campeãs de reclamação. A criança não consegue manter a atenção durante longos períodos em sala de aula, pode estar comprometida na motivação para estudar, e mostrar desinteresse. Pode ainda haver hiperatividade, a criança não para em sala de aula, anda, arruma desculpas para sair de sala, e possui dificuldades em realizar tarefas escolares. Esse quadro pode incluir um Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), ou apenas apresentar dificuldades de atenção. Difere do Transtorno de Ansiedade simples por não incluir agressividade, e se restringir à escola. O Transtorno de Ansiedade é ainda inconstante e pode ser melhorado com alterações na educação familiar, e a atenção não está tão prejudicada.

A Depressão Infantil é um caso complexo. Ela pode estar camuflada por trás de um Transtorno de Ansiedade e até mesmo ser causa de um TDAH, aqui estamos falando de comorbidade e a classificação de qual transtorno é o principal e qual é o secundário dependerá da preponderância da manifestação sintomática da criança. É importante identificar se há algum objeto alvo de amor relacionado à depressão infantil, como um pai falecido, ou negligente por exemplo. Crianças que não possuem um pai presente ou uma mãe muito distante podem apresentar depressão relacionada à carência afetiva desse amor não dado. Nesse caso, algumas crianças podem apresentar regressões psíquicas afetivas e cognitivas, que é o famigerado mimo. Abrindo um parêntese, vale ressaltar que o mimo não está relacionado exclusivamente ao carinho e afeto recebidos pela criança, mas a outros fatores na relação de autoridade paternal. Em momento oportuno discorrerei sobre o tema.

Os Transtornos de Conduta Infantil estão relacionados à ausência de educação com limites, à identificação com um pai transgressor por incrível que pareça. Algumas crianças querem ‘seguir o exemplo’ do pai amado e isso pode ser um perigo se esse pai é distante, por exemplo, e se a mãe não possui habilidades educacionais nenhuma, ou se negligencia a educação do filho, por exemplo. Nesse quadro estão incluídos agressão, furtos e roubos, atos vingativos, comportamentos e atitudes desafiadoras, travessuras vingativas, rebeldias, dentre outros.

Já o Transtorno Opositor difere-se do de Conduta por não apresentar o aspecto vingativo nem a identificação com um dos progenitores, esse transtorno está situado mais no âmbito da perturbação, rebeldia, desobediência e provocação direcionado aos pais como forma de reação às injustiças paternais, aos excessos de limites impostos, à depressão parental, dentre outros. Geralmente o Transtorno Opositor é reativo e deve ser identificado junto com um transtorno parental, como grande parte dos outros transtornos infantis, como regra.

/ Um problema infantil é apenas um sinal. Mas sinal de quê?

As alterações de humor infantis podem ou não estar relacionadas à depressão e à ansiedade infantil. Podem ainda se enquadrar num transtorno específico ou não configurar transtorno por ser eventual e pontual a manifestação sintomática da criança. Essas alterações dizem respeito a momentos alternados de depressão com ou sem agressividade, e agitação psicomotora na criança ao longo do tempo. Alterações de humor podem estar relacionadas ao ambiente infantil, serem absorções de problemas mentais paternos e podem ter estreita relação com o universo infantil em comorbidade com algum distúrbio cognitivo ou fator de personalidade relacionado a fragilidade de self.  

Tenho percebido que grande parte dos Transtornos Cognitivos leves e médios nas crianças possui estreita relação com a família de origem. Pais pouco estudados ou sem habilidades em identificar emoções e que não entram no mundo da criança através do diálogo possivelmente não estimulam psicologicamente a criança de maneira adequada. Contudo, estudos devem ser efetuados para identificar a relação existente entre esses pais fechados e a criança com transtornos cognitivos. Na clínica percebo que crianças filhas de pais com retardos mentais leves ou pais inábeis emocionalmente podem apresentar algum grau de transtorno cognitivo que se não tratado adequadamente poderá se tornar grave.

A Síndrome de Asperger difere do autismo por ser menos grave e por haver interação da criança entre seu meio. Contudo, a criança pode ter uma linguagem bem desenvolvida, agitação psicomotora, irritabilidade, manias e compulsões, falas desconexas com o assunto conversado são sinais indicativos de Asperger, mas não suficientes para fechar diagnóstico que sempre deverá ser multidisciplinar. O autismo é uma clínica difícil e que precisa ser tratado de maneira interdisciplinar para que haja adaptabilidade infantil ao meio e também estímulos adequados para cada faixa etária. Esses são quadros com grande fator genético.

Enurese e encoprese são dificuldades de segurar a urina durante o sono e dificuldade em ir ao banheiro respectivamente. A enurese pode estar associada à depressão e à ausência de um dos progenitores. Pode ainda ser reforçada se a família não tiver habilidade em disciplinar a criança quanto ao consumo de água no período noturno, e negociações para que a criança pare de urinar na cama. A encoprese é a dificuldade de evacuar, a criança poderá segurar o excremento como forma de sentir prazer ou com receio de ir ao banheiro. São casos difíceis de lidar, mas precisam de uma análise profissional para que a fobia não se intensifique.

Já a fobia alimentar pode ser caracterizada por um medo grande da alimentação tradicional como arroz, carne e feijão por exemplo. Pode ser desencadeada por um trauma e ser agravada pela super-memória de algumas crianças. Se a família vir a forçar a alimentação poderá ou romper com a fobia de uma maneira severa ou até mesmo agravar o estado de fobia. É também um caso difícil e requer muita paciência, brincadeiras maternas e bom humor por parte dos pais para lidar com a situação que poderá vira ser irritante.

É importante ressaltar que a mera identificação dos sintomas aqui apresentados não serve para enquadrar seu filho em tal ou qual caso. Um psicodiagnóstico por um profissional é o indicado para avaliar a situação de seu filho, pois existem comorbidades entre adoecimentos, causas transgeracionais (que passam de pais para filhos), problemas institucionais, conflitos inconscientes, etapa evolutiva da criança, estruturas cognitivas específicas que interferem na manifestação do sintoma infantil dentre outros fatores que necessitam ser analisados por um profissional ao longo do tempo para a definição correta de um psicodiagnóstico infantil.


Intervenções nos casos

A intervenção em cada caso apresentado deve ser sempre a profissional. Como dissera em cima, os fenômenos psicopatológicos infantis são multideterminados e a expressão de um sintoma numa criança não segue à risca a de um adulto, para isso sugiro ler Depressão Infantil, que é um artigo antigo.

As intervenções sempre se compõem de psicoterapia infantil, orientação e aconselhamento dos pais, psicoterapia familiar, psicoterapia individual para os pais, psicoterapia de grupo para a criança, combinadas com atividades interdisciplinares como Terapia ocupacional, Fonoaudiologia, Nutricionista, atividade física, psiquiatra infantil ou neuropediatra, psicopedagogo e psicomotricidade. Quanto maior o âmbito de intervenção, mais rápida e mais eficiente é a melhora do quadro infantil.

É impossível tratar a criança sem que a família seja alvo das intervenções profissionais. Alguns casos infantis são reativos aos casos dos pais e se os pais se tratarem, os sintomas infantis desaparecem. Há casos em que o tratamento infantil se for exclusivo com a criança, não apresentará eficiência dado que um transtorno mental não especificado nos pais pode ser o fator desencadeante da patologia infantil.

Há muitos casos de mães separadas que suportam sozinhas a rotina com os filhos sem pensão, a casa, o trabalho, a educação, a própria saúde, e outras coisas mais. São mães heroínas que sobrecarregadas podem entrar em um transtorno de ansiedade ou se abandonadas desenvolver uma depressão. Sobre dificuldades no relacionamento conjugal, leia Quando o Amor Esfria. É obvio que o filho será contaminado por esse transtorno materno. Uma ação conjunta com mãe e filho deve ser promovida para que se esclareçam os problemas de cada um. Orientações quanto à maneira de educar deve ser fornecida com o risco de que o tratamento infantil ser inócuo.    

Mães que sofreram muito quando crianças tendem a ser liberais demais e até mesmo possuem medo de educar os filhos, pois sentem pena de vê-los chorando. Nesse caso, a mãe se projeta no filho e inconscientemente lembra da própria infância. Um trauma infantil materno impede a educação com firmeza e eficiente nesses casos. Geralmente desenvolvem filhos sem limites, com dificuldades de concentração, agitados e desobedientes.

Mães ansiosas e irritadas demais também desenvolvem filhos muito agitados, desobedientes e até mesmo opositivos. São mães que de tanta irritação causam estresse nos filhos, que não suportando a carga emocional explodem através do comportamento agitado. Tais mães ainda possuem inabilidades em educação, ou sendo severas demais, ou libertárias demais ou o que é pior, alternando liberdade excessiva com controle excessivo, o que confunde ainda mais os filhos, podendo ou não gerar fragilidades psíquicas neles.

Há casos de mães inseguras quanto à educação, se devem ou não limitar, se permitem ou não o choro ou se controlam ou se permitem determinados comportamentos. Geralmente são mães inseguras, que não tiveram mães, ou que são muito criticadas por parentes próximos. Tais mães precisam somente de um reforço na autoestima porque geralmente já costumam ter mais amor pelos filhos do que as mães negligentes e permissivas, e por isso são menos resistentes nos esforços para melhorarem a educação dos filhos.

Os pais controladores podem desenvolver na criança um self inseguro, medroso, que pode ou não levar ao choro fácil, mimo ou depressão infantil se houver prolongamento desse comportamento paternal. Tais pais enxergam tudo como frescura da criança, querem que ela cresça logo sem dar assistência emocional para isso e geralmente entendem o momento de amor e dialogo como mimos desnecessários. Essas crianças crescem sem se alfabetizar emocionalmente e carecidas de amor e atenção, desenvolvem patologias como depressão e ou até mesmo dificuldades escolares.


/   “Amar é sempre uma decisão. Saiba disso!”

Alguns pais confundem ainda contato social com os filhos com contato afetivo. Costumo dizer que uma criança é como uma planta que precisa de sol (figura paterna) e água (figura materna) para se desenvolver. Há famílias que não reservam momentos de diálogos com os filhos e há uma distancia afetiva. Os pais pensam que sair pra jantar, passear, ir ao parque são contatos suficientes. Falar das emoções dos filhos, dizer que os ama, falar que que sentem, deixa-los falar do que pensam, são momentos necessários para o desenvolvimento infantil. Junte-se a isso um tom amistoso na voz e momentos de brincadeiras entre pais e filhos.

Há pais com grandes dificuldades em demonstrar afeto e gastar tempo com isso, seja por resistência em demonstrar afeto, seja por negação do filho, seja por depressão ou estresse acumulado. Esse tipo de contato é estruturante, ou seja, desenvolve psicologicamente a criança em todos os níveis: emocional (reconhecer e controlar emoções), cognitivo (memória, inteligência, linguagem), social (egoísmo, simpatia, perspicácia) e espiritual (entendimento do mundo, visão das pessoas, caráter, etc).

Enfim, sobre esses pais, sobre a dinâmica familiar, sobre a história de vida dos pais, sobre a comunicação familiar e dentre outros, que deve incidir a intervenção psicoterápica para que haja sucesso na recuperação mental das crianças. Há um artigo em que abordo essa questão de comunicação familiar, Os Ruídos da Comunicação Familiar


Conclusões

Ressalto que a clinica infantil é necessariamente interdisciplinar e que você, pai e mãe, antes e durante o momento de levar seu filho ao psicólogo se questione sobre si, sobre seu passado, sobre sua família de origem, sobre os sentimentos que seu filho desperta em você e por quê, sobre a forma de se comunicar em família e sobre seus sentimentos por eles para que a recuperação psicológica de seu filho seja eficiente.

Questionar-se é sempre um desafio, olhar para si é sempre uma impossibilidade à primeira vista, mas que quando efetuada, proporciona diversos benefícios psíquicos e familiares em grande escala. Grande parte do desafio no tratamento das crianças são os problemas dos pais. Tenha essa coragem de se olhar, de olhar para si antes de olhar para seu filho. Amor, carinho, atenção, conversa, diálogo, compreensão, respeito são ingredientes fundamentais na educação de um filho.

Termino esse artigo, melhor dizendo esse rascunho, com a sensação de sua incompletude, e é melhor assim. Voltarei a ele brevemente para adicionar, retirar, ou incrementar algum assunto com certeza. Espero que o leitor não se frustre em sua leitura, pois meu objetivo foi um breve relato sobre os quadros que percebo e tecer alguns comentários que julgo relevante para cada caso.

Portanto, pais, estejam à vontade para apontamentos, perguntas e sugestões que atenderei de acordo com a possibilidade. Sugiro que mantenham o anonimato, pois caso contrário, seu comentário não ser publicado. Aguardem o próximo artigo e abraço a todos. 

4 comentários :

  1. Blog encantador,gostei do que vi e li,e desde já lhe dou os parabéns,
    também agradeço por partilhar o seu saber, se achar que merece a pena visitar o Peregrino E Servo, também se achar que mereço e se o desejar faça parte dos meus amigos virtuais faça-o de maneira a que possa encontrar o seu blog,irei seguir também o seu blog.
    Deixo os meus cumprimentos, e muita paz.
    Sou António Batalha.

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  2. Penso que certo tipo de comportamento será numa fase ou não. Qual idade que devemos observar esses comportamentos?

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    1. Toda a idade... somos seres de fases certo? Até a senilidade... Porém, ao destacar 'fase' nos dá uma certa ideia de que se deve deixar passivamente passar esse determinado conjunto de comportamento. Porém, o contrário é necessário: os pais e filhos (porque pais também têm fases) devem conhecer e intervir positivamente em cada fase de seus pares...
      O exposto no texto foi um quadro psicológico, um problema. Logo, atente-se aos sinais esclarecidos...
      Abraço!

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