SUGESTÕES PARA O RELACIONAMENTO FAMILIAR

Texto publicado pelo O Jornal Batista.

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Neste texto forneço algumas dicas básicas para o relacionamento familiar e tento não considerar tudo muito simples. Há textos que complementam essa leitura como o Psicologa para Educação de Filhos e Psicologia de Adolescentes

Ter um relacionamento familiar saudável é o objetivo de qualquer família. Entretanto, deve se ter em mente que para isto acontecer um trabalho específico deve ser realizado no sentido de construir um ambiente cooperativo e benéfico.

Antes de procedermos a algumas reflexões sobre formas de relacionamento familiar, precisamos ver a família de forma ampla como um sistema vivo onde os componentes reagem e influenciam-se uns aos outros de forma recíproca.

Os membros não estão isolados dentro da família e seus comportamentos não se devem exclusivamente a fatores de personalidade. O comportamento inadequado ou o relacionamento conflituoso deve preferencialmente ser entendido a partir da relação familiar interpessoal e até mesmo a partir de questões transgeracionais (modos de interações, reações, ações, sentimentos, comportamentos, expectativas e etc, aprendidos na família de origem e perpetuadas na família atual).

Entretanto, não basta apenas ler um receituário de dicas prontas sobre relacionamento familiar e deixar o resto nas mãos do outro cônjuge como o único responsável pela construção de uma família saudável.

Construir um relacionamento familiar benéfico requer auto-observação, disposição para autocrítica e para mudanças. Vai além da mera aquisição de informação sobre o próprio funcionamento.


Equilíbrios nos Relacionamentos

Relacionar-se é ao mesmo tempo estar ligado e diferenciado dos outros componentes dum sistema. Muitos comportamentos disfuncionais na família acontecem devido ao desequilíbrio entre ligação e diferenciação dos componentes familiares.

Há vínculos afetivos e psicológicos envolvidos numa relação familiar, e ao mesmo tempo espaços de privacidade, de autonomia e de individualidade que devem ser respeitados. Um desequilíbrio entre vínculos psicológicos e espaços de individualidade é o que pode comprometer o relacionamento familiar saudável ao provocar ou impor dependência psicológica na relação.

Se os componentes familiares estiverem tão ligados uns aos outros, os sonhos dos pais, por exemplo, podem ser impostos para os filhos. Ou então o abuso de poder pode ser tão sufocante que o adolescente se torna reativo à falta de espaço para desenvolver gradualmente a própria autonomia.

De forma diferente a liberdade excessiva e a falta de limites na educação dos filhos pode ser sinal de diferenciação e distância extremas entre os componentes familiares, onde o afeto não é demonstrado e a frieza emocional e a distância afetiva se tornam uma constante.

Relacionar-se em família é buscar o equilíbrio entre a ligação e a distância psicológica dos membros da família. Imposição de sonhos, autoritarismo, rebeldia, distância afetiva, ausência de poder parental, abuso de poder podem ser sinais de desequilíbrio entre esses dois polos, o que significa família pouco saudável. 

Muitas vezes o processo de comunicação em família precisa ser melhorado. Leia o texto Os Ruídos da Comunicação Familiar sobre esta temática.



A Dinâmica Familiar

Os porquês do desequilíbrio entre esses dois polos – ligação afetiva e distância psicológica – devem ser buscados em outro sistema: na família de origem dos pais. Casais herdam formas de se relacionar e de estar em família e acabam por reproduzir inconscientemente na família atual esses padrões aprendidos da família de origem.

Esses padrões aprendidos incluem formas de educar filhos, de reagir e de se relacionar com o cônjuge, formas de comunicação e até formas de reações emocionais. Esses padrões ou podem ser saudáveis ou nocivos para o funcionamento da família.

A família ainda é um sistema constituído por etapas e ciclos de vida como um ser humano também. Cada etapa de sua formação é um período específico que requer cuidados especiais: nascimento do filho, entrada no filho na escola e adolescência, saída dos filhos de casa, etapa da terceira idade e morte.

A falta de habilidade dos líderes da família para aceitarem essas mudanças com sabedoria pode ser prejudicial para o relacionamento familiar. Entre as consequências dessa falta de habilidade incluímos depressão, transtornos de ajustamentos, retração social, queda no desempenho escolar, conflitos de gerações e desentendimentos conjugais dentre outros.

Outro aspecto incluído no relacionamento familiar são as regras de convivência. Essas regras versam sobre relação afetiva, social, e espiritual. Os pais devem ser justos, firmes, concordantes e coerentes na fixação dessas regras de relacionamento familiar.

Ausência de poder parental e de regras, poder assimétrico e discordante entre pai e mãe, negligência nas tomadas de decisão, liberdade excessiva, tirania dos pais, injustiça no cumprimento e na exigência de regras e quebra do contrato conjugal são fatores danosos para relacionamento familiar que se espera saudável.


Aperfeiçoando o Relacionamento Familiar

As bases afetivas de um relacionamento familiar saudável se fixam sobre o respeito, o amor e o carinho. Os aspectos comportamentais incluem a colaboração, a dedicação e o companheirismo. Já as bases cognitivas se fixam sobre a comunicação direta e clara, a informação sincera e sobre a empatia, buscando entender o outro sempre antes de emitir opiniões.

Se os líderes familiares não se atentarem para planejamento familiar; adaptação aos ciclos familiares; heranças de padrões de comportamentos inadequados; respeito da autonomia e da liberdade dos componentes; autoridade e regras; comunicação direta, clara e sincera, estabelecimento de harmonia nos poderes parentais e disponibilidade para mudanças, a família não terá um relacionamento saudável.

Esta estruturação de um relacionamento familiar começa já no namoro e até antes. Muitas famílias chegam à clinica querendo corrigir no ciclo da adolescência o que deixaram de fazer desde a infância dos filhos. A autoridade respeitosa dos pais não se impõe tardiamente. É uma construção desde a infância dos filhos.

Pais devem ganhar tempo conversando entre si sobre o funcionamento da própria família, assim como se planeja reuniões de trabalho. Pais não devem culpar seus filhos por tudo, devem encarar problemas de relacionamento de forma ampla. Devem buscar o porquê a maneira de educar os filhos está sendo deficiente.


Aperfeiçoando o Relacionamento Entre Pais e Filhos

Na educação de filhos os pais devem:

1) Pensar juntos em um plano de educação para os filhos e ter um planejamento de comum acordo na educação dos filhos antes mesmo de tê-los. Se pais discordam muito na forma de educar, isto não precisa transparecer para o filho. Educar é planejar e não terceirizar educação.

2) Tomar cuidado com as fontes de autoridade da família. Fontes de autoridade não podem se chocar, não podem estar ausentes e nem serem injustas. Pais devem evitar discutir a educação dos filhos na frente deles. Coisas como “pergunte ao sei pai. Se ele deixar, pode ir”, já é uma motivação para comportamentos inadequados. Se não souber o que fazer, diga ao seu filho “seu pai e eu vamos conversar e resolver juntos”. Os filhos precisam perceber que ambos os pais estão comprometidos e conversam para chegar juntos a uma postura. Por isso, não transfira a responsabilidade para o cônjuge. Educar é ter autoridade e não autoritarismo.

3) Construir um sistema de educação preventiva com diálogo aberto e justo desde a infância. Alguns pais só corrigem, mas não previnem através da conversa pedagógica. E cuidado: prevenir não é projetar seus medos, receios e traumas sobre a criança. Educar é instruir, não é só corrigir e limitar.

4) Produzir tempo de qualidade para estar com os filhos. Muitos problemas de desajustamento acontecem não por falta de tempo, mas pela percepção que os filhos têm da qualidade deste tempo gasto. Ausências parentais podem contribuir para comportamentos desajustados tanto como a presença sem qualidade. Jogue futebol conversando com o seu filho, pergunte sobre seu dia, comemore suas conquistas, faça o pensar nos seus comportamentos e esteja pronto para ouvir. Não perca a oportunidade de conversar e corrigir. Educar é ser companheiro e amigo.

5) Tomar cuidado com a palavra ‘sim’. Para não serem importunados com os choros e pirraças os pais deixam os filhos fazerem tudo o que querem. Se você faz isso, perdeu a chance de educar corretamente e está possibilitando mais comportamento inadequado. Diga ‘não’ quando for preciso. Mantenha a autoridade e explique para seu filho a sua postura para que ele não perceba injustiças. Não se esqueça de que autoridade não é autoritarismo. Educar é sinônimo de limitar, mas sempre com justiça.

6) Mostrar afetos positivos aos filhos. Filhos precisam ser amados em prática. Procure mais contato afetivo com o seu filho. Abrace-o, beije-o e se torne afetuoso com ele sem exageros. Às vezes uma boa conversa com contato afetivo entre mãe e filho pode ajudar a aproximá-los psicologicamente e pode colaborar com a motivação dele se corrigir dos comportamentos inadequados. Educar é amar em comportamentos e afetos e não somente com palavras.


Aperfeiçoando o Relacionamento Conjugal

Entre si, os cônjuges devem:

1) Saber se amam de verdade o outro antes de casarem-se. Aqui começa o relacionamento familiar saudável. Muitas tentativas fracassadas de melhora no relacionamento conjugal se devem à ausência de algum tipo de amor, como o Eros por exemplo. Alguns pensam que o amor Eros é questão de decisão. Mas na verdade o amor Eros não é uma questão simples de decisão. Os outros se constroem, mas o Eros já não fica tanto à mercê da nossa decisão consciente. Eros por si só não mantém o casamento, mas casamento saudável é resultado da soma de todos eles. Amar é ser completo em amores completos.

2) Pensar sobre sua família e conversar sobre ela. Produza tempo conversando sobre a dinâmica familiar, os relacionamentos familiares, sobre as regras e o quotidiano da família. Estar disposto a conversar sobre a relação conjugal e a mudar é sinal de relacionamento saudável e de amor. Amar é dialogar.

3) Buscar a sinceridade e a disposição para a interação familiar saudável desde o início do relacionamento conjugal. Muitos ressentimentos corroem os relacionamentos se não forem conversados objetivamente. Estar disposto a falar e a ouvir é imprescindível. Amar é abrir-se com respeito.

4) Relacionamento conjugal sadio também possui discussões. A questão é como se discute os temas conjugais. Em geral, as comunicações se tornam impossíveis por inabilidade em comunicação e não por ausência dela. Com isso, interferências na comunicação aparecem, tais como as crenças irracionais que um cônjuge forma da figura do outro, preconceitos, audição seletiva da fala do outro, dentre outras. Amar é preocupar-se com o aperfeiçoamento.

5) Discutir com bom senso. Não busque culpados, foque o assunto em soluções dos problemas. Nunca discuta no ato do problema como uma reação emocional. Dê um tempo entre o fato e a discussão do fato. Não discuta na frente dos filhos. Não faça competições sobre quem manda e quem ganha a discussão. Elabore listas de queixa entre os dois e procedam às mudanças. Nunca fale: ‘você me irrita’, mas diga ‘me sinto irritado com isso’, nunca fale ‘você não me ouve’, mas diga ‘não se sinto compreendido’. Amar é ser humilde amando.

6) Estabeleça entre vocês regras de discussão e de conversa para evitar ressentimentos. Portanto, em discussões, primeiro orem. Depois fale cada um do sentimento que sentiu e como se sentiu, depois fale objetivamente da situação problemática e da atitude equivocada e nunca ofenda a pessoa do cônjuge. Ouça atentamente e não interrompa o desabafo, faça questionamentos ao outro sobre os sentimentos dele, indague sobre possíveis soluções, comprometa-se com a mudança e proponha atitudes. Amar é seguir regras para não ferir o outro.

7) Atentar sobre a dinâmica conjugal. Os casais devem observar padrões herdados de comportamentos inadequados da família anterior, observar o ciclo familiar e adaptar-se a mudanças, considerar as regras do contrato conjugal e proceder a ajustes delas, e resolver questões suas sem projetá-las nos filhos. Amar é observar-se no amar.

No texto O Casamento Ainda Está na Moda? apresento algumas vantagens do casamento e faço uma análise dessa sociedade conflituosa e benéfica.  



Desafios do Relacionamento Familiar Saudável

Em tempos de televisão, videogame, internet, celular, terceirização da educação dos filhos para a escola, tempos de novos formatos de família com avós, tios e outros incluídos, em tempos de jornada dobrada de trabalho e de insuficiência de momentos de prática de interação familiar, comunicar-se habilmente se torna tarefa difícil.

Às vezes o casal tem a sensação de que falar e ler sobre como relacionar-se em família é fácil, mas praticar é difícil. Para isso, tomem atitudes preventivas. Casais devem conversar em tempos de bonança para saberem discutir com objetividade e lealdade em tempos de crise. Em tempos de calmaria planejem para saber como agir em horas conturbadas. Traga também os filhos para a responsabilidade da conversa em família.

Na clínica se percebe que a interação familiar saudável depende muito menos da informação e mais sobre a disponibilidade para abrir mão de comportamentos inadequados e querer a mudança. Essa mudança para o relacionamento saudável não é responsabilidade de um só, mas de todo o sistema familiar.

Por fim, um exemplo para ilustrar. Em consulta uma paciente chegou com a queixa de que a filha estava com notas baixas demais na escola. A reclamação era de que a menina não rendia o esperado pela família.

No proceder do entendimento global do funcionamento familiar, pode-se perceber que o comportamento da menina era uma reação à atitude dos pais muito repressiva e ditatorial. Por vezes ditavam comportamentos à filha como forma de pressionarem para que ela ‘se desse bem na vida estudando’.

Essas notas baixas da menina demonstravam nada mais que a sua reação à pressão dos pais e era sinal de que a interação familiar não estava sendo sadia e que a comunicação era inexistente. Somente em consulta puderam perceber que as expectativas sobre a filha estavam fora da realidade da menina e que a autonomia dessa adolescente estava sendo violentada.

Os pais admitiram essa coação, mas diziam que era o preço a ser pago para o sucesso da menina. Ainda se percebeu que eles tinham frustrações relacionadas à carreira profissional, já que o nascimento da filha, ainda quando eram solteiros, fez a mãe abandonar a tão ansiada faculdade para se casar.

Discussões longas com ofensas pessoais sempre eram presenciadas pela menina. Ela percebia no seio familiar uma disputa de poderes e um empurra-empurra de responsabilidades. Isto era suficiente para não obedecer àquelas fontes de autoridade discordantes entre si e reagir ao sistema repressivo como forma de expressar a sua raiva por não ter um lar equilibrado e feliz como o da prima.

A menina era apenas o sintoma do mau funcionamento de todo o sistema familiar. Havia questões não bem resolvidas no passado do casal parental e o que gerava negligências nas responsabilidades e procura de culpados pelas frustrações mútuas.

A ajuda do profissional Psicólogo nesta família fora decisiva para que não houvesse a separação. Portanto, se as coisas desandarem e não souber ou não tiver coragem para ajustar as coisas, procure ajuda profissional.

Esteja certo de que a dinâmica doméstica analisada junto com a família e um profissional psicólogo pode proporcionar um relacionamento familiar mais saudável.

10 comentários :

  1. adorei o texto, é claro, é simples e direto, esclarece muitas dúvidas.

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    1. Obrigado, Ilona. Esse é o objetivo. Ao invés de teorizar, sugerir, mas sem cair no inconveniente de sustentar sugestões como verdades universais padronizadas.... São apenas reflexivas.

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  2. Texto muito esclarecedor do ponto de vista da comunicação,sobretudo nas diversas formas de comunicar-se, onde englobam também os gestos. E u e meu maridos temos dificuldades enormes de comunicação, pois eu me comunico muitos através de gestos e ele odeia quando eu franzo a testa. Tento não fazer, mas é involuntário. Até brinco dizendo que prefereria não franzir pois envelhece, mesmo assim não cola, e a comunicação já foi. Me ajude a melhorar meu relacionamento.

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    1. Bom, amigo. Procure um profissional. Há questões que ultrapassam o mero aprendizado através de um texto...

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  3. Um texto muito bom,,, claro, conciso e objetivo! Muito esclarecedor e de tamanha importância para quem pretende construir um ambiente familiar saudável,

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  4. um texto muito bom e explicativo,mas pra mim está sendo muito difícil essa fase de adolecência meu filho é muito agressivo com palavras qdo impomos regras ou limites,questiona muito,como devo fazer,não gosta de ser contrariado.

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  5. poucos são os que sabem o que seja livre arbitrio, rasão pela qual existem muitas diferenças que devem ser respeitadas; acima de tudo, devemos respeitar limites e então seremos uma família bem relacionada. considero muito bom e válido o seu comentário

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  6. Muito bom, vou praticar mais este método.

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