ENTREVISTA AO ÚLTIMO SEGUNDO PORTAL iG



Minha amiga foi traída: conto ou não conto?


O que fazer? Contar para protegê-la? Arriscar-se a levar a fama de fofoqueira ou até de perder a amizade? “Contar ou não é sempre uma decisão difícil, que acarreta consequências”, afirma o psicólogo carioca Marcelo Quirino.

Mas ficar em silêncio tem suas implicações também. “É uma questão ética, que põe em jogo valores pessoais. Quem está nesse dilema precisa avaliar que tipo de valores tem o casal. Será que eu posso me meter na vida do outro ou não?”, discute Quirino.

----------------------------------------------------
 Inicie a Leitura Aqui

Minha amiga foi traída: conto ou não conto?

Descobrir uma traição é sempre um fardo. Lidar com a situação não é fácil para os envolvidos, nem para as testemunhas

Mesmo quem não tem vocação para fofoqueiro e detesta se intrometer na vida dos outros pode acabar na saia-justa: acidentalmente, você descobre que sua melhor amiga está sendo traída. O que fazer? Contar para protegê-la? Arriscar-se a levar a fama de fofoqueira ou até de perder a amizade? Simplesmente não se meter na vida alheia? “Contar ou não é sempre uma decisão difícil, que acarreta consequências”, afirma o psicólogo carioca Marcelo Quirino.

A produtora Liliane Ferrari, 35 anos, prefere silenciar. Uma amiga do clube que ela frequenta está sendo traída – o parceiro dela é ex de outra amiga de Liliane, e ela sabe que acontecem “recaídas” entre os dois. De acordo com a produtora, a regra do silêncio evita confusão e pessoas mais magoadas ainda. “Eu acho que é a pior coisa apontar esse tipo de situação. Num relacionamento, tudo se dá entre duas pessoas, que podem conviver com realidades e acordos que não vêm ao caso para mais ninguém além do casal”.

Mas ficar em silêncio tem suas implicações também. “É uma questão ética, que põe em jogo valores pessoais. Quem está nesse dilema precisa avaliar que tipo de valores tem o casal. Será que eu posso me meter na vida do outro ou não?”, discute Quirino. Ele acredita que há quatro fatores a serem levados em conta: a proximidade e intimidade com o traído, a personalidade dessa pessoa – se ela é estável e suporta ouvir uma notícia como essa -, se a relação com o suposto traidor é monogâmica ou aberta, e se não é o caso de uma relação sadomasoquista, de codependência, em que é inútil interferir. “Neste caso, a pessoa sabe que é traída, mas continua o relacionamento. Contar, assim, é perda de tempo, e você corre o risco de perder a amizade”, afirma o psicólogo.

Depois de ser acusada de intrometida, a bibliotecária e arquiteta da informação Carolina Fraga, 22 anos, não interfere mais. Uma amiga dela decidiu reatar com um ex, ao mesmo tempo em que Carolina já tinha visto o rapaz acompanhado de uma loira. “Avisei-a de que ela não era a única. Ela desistiu de sair com ele”. Um dia, ele apareceu na casa da amiga acompanhada de uma loira. Nem era a moça em questão, mas foi suficiente para a amiga de Carolina se desestabilizar e armar um barraco. “Ela, sem querer assumir que teve uma reação desmedida, disse que eu deveria ter ficado na minha e nunca comentado, e que assim ela não teria reagido dessa forma. Disse que eu falava demais”. A amizade de 16 anos ficou abalada, e Carolina se prometeu nunca mais repetir a experiência.

“De modo geral, a infidelidade é considerada um assunto restrito ao casal, em que cabe a ambos a responsabilidade pela resolução da situação”, afirma a antropóloga Francisca Luciana de Aquino, mestra pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) que estudou a infidelidade através dos mecanismos de fofoca. “Contar ao amigo que ele está sendo traído é se ‘intrometer’ e até mesmo se comprometer com a suposta traição”, diz a antropóloga.

Além disso, cabe ao amigo “delator” o ônus da prova. “Contar a traição ao outro pressupõe prová-la. Ao mesmo tempo, ninguém quer ser responsabilizado pelo término de um relacionamento conjugal”, constata Francisca, da UFPE.


Laços abalados

Quem conta pode acabar também na posição de traída. A webwriter Lis Comunello, 35 anos, se sentiu desamparada quando a melhor amiga preferiu acreditar no namorado em vez dela. “Eu tinha 17 anos, minha amiga 16. Nos conhecíamos há 6 anos e éramos grudadíssimas.” Ambas foram fazer o colegial numa cidade maior, e a amiga de Lis começou a namorar. A webwriter acabou descobrindo diversas “puladas de cerca” do namorado da melhor amiga, e depois de semanas de indecisão, pensando na melhor maneira de contar à amiga, tomou coragem. “À ela, ele negou e ainda disse que eu estava inventando porque estava apaixonada por ele”. Lis ficou tão magoada que se afastou. “Acreditei que ela confiaria em mim e acabei me sentindo traída”, desabafa. “Nunca mais consegui me abrir com ela, por pior que eu estivesse”.

Mais grave ainda é quando a traição envolve família. Filhos que descobrem que um dos pais trai o outro acabam carregando um peso muito grande até a situação ser resolvida, e, muitas vezes, restam sequelas, como a quebra de confiança nos relacionamentos. “Quanto menor é o filho que descobre, mais é necessário dizer ‘não é sua culpa’”, explica o psicólogo. Entre adolescentes e adultos a conversa franca é o melhor canal para resolver a situação. “É preciso falar com o pai ou mãe traidor para que ele saiba como se sente. Não é uma responsabilidade que ele deve carregar sozinho, e um pai ou mãe que não sai desse impasse deixa o filho na posição de traidor também.”


E quem prefere saber?

Embora a professora Elisa Silva, 40 anos, já tenha perdido a proximidade de uma amiga por alertá-la de que o parceiro dela era mulherengo, agradece por ter sido avisada. “Nesse caso, a traída fui eu e quem contou a safadeza do meu ex foi um amigo”, diz. Elisa vivia no Rio de Janeiro e seu namorado em São Paulo, onde ele mantinha outra namorada. A namorada e Elisa tinham um amigo em comum, que percebeu a “coincidência” e a avisou. “É lógico que terminei, que o ex negou, que quando eu fui irredutível ele correu para a outra namorada, que me encarou como se eu fosse só um ‘casinho de quase um ano’”. Elisa é feliz de ter sido alertada, mas nem toda história acaba assim, bem resolvida.

“De modo geral, o que se cala não é mal visto socialmente. Em compensação o que fala pode ser classificado de ‘fofoqueiro’ ou de ‘alguém que gosta de se intrometer na vida conjugal dos outros’”, confirma Francisca. Na dúvida, vale uma conversa de sondagem, para que o amigo não acabe ouvindo o que não quer. “É melhor se orientar pelos valores da pessoa e optar pelo que causa menos dano”, afirma Marcelo Quirino. E tendo feito a escolha de contar ou não, seguir sem culpa e torcer por um desfecho tranquilo.

Leia outras entrevistas do Dr Marcelo Quirino na seção Entrevistas



Entrevista por Verônica Mambrini, iG São Paulo | 31/01/2011 10:40

0 comentários :

Escreva Aqui