As 7 Dimensões da Liderança


O contexto da pós-modernidade requer novos perfis de liderança. Características óbvias se substituem por outras na atualidade. Não se fala mais em líder nato, nem em líder através de traços de personalidade. Percebeu-se – já era hora – que a liderança antes de ser exclusivamente uma habilidade precisa ser considerada como um fenômeno.

Depois desta leitura, leia As Leis do Fenômeno Liderança para um melhor entendimento da temática. 

Fenômeno pode ser traduzido como um conjunto de forças diversas que proporcionam um fato. Isso retira do conceito de liderança qualquer simplismo. Liderar é dirigir alguns de alguma forma rumo a algum objetivo num determinado contexto-ambiental. Nesse caso, o fato social liderança precisa ser do tipo de influência inter-humana. Portanto, proporcionar influência é a finalidade-fato de qualquer liderança produzida numa instituição ou grupo.

A influência poderia ser definida como a irradiação de formas próprias de pensamentos, crenças, valores, afetos, emoções, comportamentos e atitudes por entre os seres humanos. Esta propagação de elementos se deve à capacidade que os seres humanos possuem de provocar determinadas sensações e percepções na psique de outros seres humanos.

A influência é um axioma. Não precisa de demonstração. Basta ver os bocejos contaminadores, os risos contagiantes e as pessoas que vivem passando seu clima emocional ruim ou bom na sociedade e contaminam todo o ambiente com seu mal ou bom-humor.

Apesar disso, precisamos entender os mecanismos sobre os quais opera a influência a fim de produzi-la intencionalmente sobre determinado grupo e de determinada forma. A questão então seria: que tipo de influência e como desenvolvê-la para um grupo específico e como mantê-la de forma eficaz?

A Cultura e as Teorias da Influência

Respostas a essa pergunta se sucederam em explicações sobre o fenômeno da liderança. Diversas teorias sobre os fatores que incidem na influência foram desenvolvidas. Tal diversidade se deve às mudanças éticas, históricas, morais e políticas e culturais que perpassam o humano ao longo dos tempos.

O que diferencia uma teoria da outra é a forma como uma teoria explicita a influência, o que é privilegiado em sua explicação, e quais os elementos são os primeiros determinantes da influência em determinada cultura.

Assim sendo, o julgamento de se tais teorias eram ou não certas ou erradas não faz sentido. Não há certo e errado, apenas descobrimentos dos elementos que produzem a influência em determinada cultura.

Eram teorias que davam conta do homem histórico daquele momento em uma determinada época. Época onde a estrutura psicológica do homem se apresentava de uma forma específica e condizente com um contexto sócio-cultural.

Entretanto, como a sociedade e seu contexto mudam, as teorias precisam acompanhar esse desenvolvimento para dar cabo de seu poder de explicação. Uma boa leitura dessa sociedade está traçada no texto Retratos dessa Sociedade.

Com isso, percebeu-se que o processo de influência depende de variados elementos. Desde traços psicológicos a características dos liderados. Em cada época se explicitou que a influência se apresentava de uma forma ao longo da história e nas culturas. Leia Motivação Oculta dos Liderados para entender fenomenos motivacionais.

Isso quer dizer que líderes não levam sempre suas influências típicas para grupos diversos, ela é um fenômeno daquele grupo onde ele se encontra. Isto é um axioma das relações humanas. Onde há duas pessoas há influência e uma liderança circunstancial daquela rede de relação que pode ser permutada entre as duas dependendo da circunstância ou fixa numa só.

A Produção da Influência

Em algumas culturas, como a militar e a indígena, os elementos de influência se apóiam sobre a hierarquia funcional e o poder inquestionável. Já em ambientes menos autoritários, a influência precisa ser produzida para se assegurar o processo de liderança.

O que faz a ciência psicológica é estudar esse fenômeno para produzi-lo intencionalmente. Aqui compromete-se indispensavelmente numa dimensão política e ética, já que se retira a liderança do domínio do circunstancial e contingencial para o intencional. De humano para institucional.

É ainda nessa produção da influência é que se encontram os equívocos de ordem técnica. Pois se formulam fórmulas prontas que desconsideram o circunstancial especifico daquele ambiente relacional.

Ambiente porque sobre a influência não incidem apenas forças humanas, mas as do ambiente no qual aquela rede de relações está inserida. Isso explica o porquê de alguns técnicos de futebol serem mais eficazes para levantar um time da última posição do campeonato do que manter outros times no topo da tabela.

A ideia não é reduzir a liderança para a teoria situacional, mas englobar forças diversas que a compõem para demonstrar esse fenômeno complexo que é a influência.

A influência pode ser obtida por poder inquestionável (militar), por persuasão e convencimento racional (cargos ocupados por eleição), por atração afetiva (líder carismático e namoro), por conhecimento de causa (como a influência de um especialista), convenção (como cargos de empresa), herdado (herdeiros de um cargo monárquico), por identificação (de valores e crenças entre líder e liderados), antiguidade (famílias da Índia) e por espiritualidade (como os líderes religiosos), dentre outros.

As Sete Dimensões da Liderança

O fenômeno da liderança acontece sobre algumas dimensões básicas que devem ser observadas por quem objetiva influenciar. Toda liderança possui essas dimensões sobre as quais operam. O que fazer em cada dimensão é o que gera o sucesso da formula pessoal especifica daquela rede de relações.

São as sete dimensões que os líderes devem observar para desenvolver a influência e a liderança.

1) Habilidades psíquicas, comportamentais e sociais;
2) A estrutura e a dinâmica da equipe de liderados;
3) A cultura, os valores e o ethos social da instituição;
4) As especificidades técnicas do trabalho;
5) O ambiente externo à instituição;
6) Os fatores contingentes externos e internos;
7) Dimensão espiritual e ética;

O líder deve ter pleno conhecimento de causas e relações e mecanismos de cada uma dessas sete dimensões do fenômeno da liderança. Desenvolver domínio de cada uma dessas dimensões a fim de que otimize o seu processo de influência.

A primeira dimensão abrange as habilidades pessoais da pessoa do líder. Inteligência, perspicácia, memória, atenção, percepção, comunicação, linguagem, traquejo, educação, versatilidade e adaptabilidade de comportamento e linguagem, congruência entre crenças, valores e comportamentos, paixão e networking são algumas das habilidades que compõem essa primeira dimensão.

Liderar grupos torna-se sempre um desafio por um único motivo: a congruência pessoal. O ser humano é perpassado pela dúvida, pelos temores, pelas indecisões, pelo paradoxo e pelo contraditório. As expressões de comportamento humano por vezes demonstram contradições entre os próprios pensamentos, sentimentos, afetos, vontades, intenções, comportamentos e ou atitudes. A incongruência é típica do humano, entretanto, o líder deve buscar a todo custo a sua congruência pessoal.

Já a dimensão da estrutura e da dinâmica da equipe de liderados diz respeito ao conhecimento da própria equipe de trabalho, seus anseios, desejos, objetivos, forma de pensar e trabalhar, educação, estrutura psicológica do grupo, fatores de influência que regem os processos dentro daquele grupo, competências profissionais e técnicas do grupo e etc.

A dimensão da cultura, dos valores e do ethos social compartilhados na instituição é uma dimensão importante. Cada ambiente institucional possui uma cultura, uma forma de interação humana e profissional ou ministerial. Os sujeitos são moldados por processos de socialização e ao mesmo tempo moldam a cultura. Faltar com o entendimento da cultura institucional pode ser um pecado capital para o líder.

É o conhecimento da cultura organizacional que vai permitir ao líder agir com proatividade e desenvolver certo grau de autonomia funcional dentro da instituição, uma vez que a cultura sustenta princípios que norteiam os comportamentos na ausência de normas e legislações específicas. Um líder congruente com a cultura organizacional é um líder de excelência.

As especificidades técnicas do trabalho são fatores que possibilitam ao líder orientar-se em sua atividade técnica. É uma dimensão indispensável ao líder. Ser um expert na atividade que se situa não é o necessário, mas o líder deve saber situar-se bem dentro do ramo técnico em que atua. Deve ainda buscar aperfeiçoamento e desenvolvimento profissional ou ministerial constante para sustentar-se enquanto líder apoiado na influência técnica.

A dimensão do ambiente externo à instituição refere-se ao mercado, à localidade ou à comunidade sobre a qual se insere a instituição. Em tempos pós-modernos as instituições não são mais as suas quatro paredes. Termos como responsabilidade social e ambiental e voluntariado rondam as organizações da atualidade. São conceitos que dizem respeito à interação da organização com a cultura na qual se insere.

Ou seja, as instituições estão indo além do seu produto e serviço final. A preocupação está em desenvolver aspectos educacionais, legais, ambientais e sociais do entorno, com o objetivo de prover-se ocasionalmente de capital intelectual e ao mesmo tempo colaborar com sua parcela de responsabilidade perante a sociedade.

A dimensão dos fatores contingenciais inclui elementos do ambiental e do grupal. O acaso. Combatida com proatividade, que é a capacidade de intervir na realidade de maneira preventiva antes que um erro ou falta aconteça. Nos fatores contingentes entram a política nacional e internacional. A globalização e outros fatores que fogem ao controle do líder de manipulação, mas não de aposta e de previsão. Por isso incluído nos contingenciais.

A última dimensão é a dimensão espiritual e ética do líder. Nessa se incluem os valores pessoais, a posição ética, a sustentação de interesse genuíno pelo desenvolvimento do ser humano. É essa dimensão que sustenta a perspectiva de liderança servidora.

O Desafio Ético e Técnico da Liderança

Um primeiro desafio para o líder se situa na dimensão ética. Esta dimensão implica necessariamente o líder num comprometimento com o bem comum. Entretanto, esse bem comum deve ser - na medida do possível e da política organizacional – o resultado de um processo político democrático e participativo. Impor um bem comum pode ser tão autoritário quanto impor a própria visão aos outros.

É na dimensão ética e espiritual que o líder confronta-se diante da formulação democrática de um bem comum (o para onde o grupo deve ir) e com a imposição ao grupo de uma decisão fruto do seu solitário saber técnico (o como ir).

A formulação do bem comum deve ser em parte resultado de um processo participativo e em parte resultado da confiança que o grupo deposita sobre a pessoa do líder apoiado no traquejo e no seu saber técnico. Ser liderado é confiar parte da formulação do bem comum para a pessoa do líder. E ser líder é permitir um mínimo de envolvimento participativo para essa mesma formulação.

Um segundo desafio é o líder estudar as principais forças inseridas em cada um dessas dimensões e realizar ajustes necessários que possibilitem o desempenho da influência específica para aquele grupo.

A liderança, portanto, não é algo que se transporta de grupo em grupo. Pode ser que algum grau de influência sim, mas o fenômeno completo deve ser desenvolvido em cada rede de relações humanas para conferir mais fidedignidade ao fato social de influenciar naquele grupo.

E como todo fato social, ele está subjugado pelo tempo, ele é temporariamente localizado e limitado. Isso deve ser objeto de previsão proativa da liderança para que otimize a largura do tempo em que permanecerá o processo de influência e para que se antecipe aos desvanecimentos das forças que a sustentam.

Portanto, ser líder é saber estar líder. Saber irradiar a influência como finalidade desse fato social produzido em instituições. É saber posicionar-se eticamente sobre um grupo no qual se produz influência. Ser líder é saber que não se é imparcial, mas que se é parcial desde que se predisponha a influenciar. É saber que a grande decisão ética é por que e para quê influenciar. É ter visão das necessidades e implicações dessa influência.

Ser líder é saber que não se está excluído da dimensão política desse fato. É estar cônscio da própria postura política naquele grupo. Postura política que nada tem a ver com partidarismo, mas com processos de decisão comprometidos com direções para um grupo. Portanto, o grande desafio da liderança é da ordem ética. É escolher como posicionar-se aberta e conscientemente entre os furos do Direito em prol do bem-comum. Isto é ética. O dever da liderança.


Marcelo Quirino
Psicólogo Clínico

1 comentários :

  1. Na maioria das vezes os líderes deixam de ser pessoas éticas.

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